- AaaaaaaaaatchôôôôÔuuuuu...
Os espirros do Aldo ressoavam pela casa inteira e arredores. “Assim, não pode! Assim, não dá!”, esbravejava ele andando em círculos pela sala de estar. No sofá, com Piatã no colo (seu cãozinho mais velho, o primogênito de uma família de cinco peludos), Carol parecia imersa num mar de paz e tranquilidade, acariciando o bichinho sonolento.
_ Não vais fazer nada? Há tempos ando com a saúde em frangalhos por causa desse monte de pelo que está em tudo que é lugar nessa casa! Na cama, no sofá, nos tapetes, nas roupas, no ar... Tem pelo até na minha língua, Carolina! Até na minha língua!
Carol era do tipo defensora dos animais. Além dos cinco cães, ela também possuía mais dois bichanos. Todos resgatados das ruas. Retirados da amargura de uma vida solitária e triste diretamente para o aconchego de uma casa quentinha com muita comida e carinho. Carol era bondade pura. E seu colo era macio... Mais macio que o mais delicado travesseiro de plumas que já existiu.
Todos os cães e gatos tinham nomes indígenas: Piatã, Janaína, Potira, Tinga, Apuã, Jaci e Guarabira. Carol era mulher da terra, conectada com as forças da natureza. Sangue de bugre correndo nas veias dentro de um corpo lindamente esculpido e cuidado através da filosofia naturalista.
Mas o que antes Aldo achava bonitinho passou a se tornar um martírio. Aldo era o tipo do cidadão que muitos por aí chamam de metrossexual. Cabelo muito bem arrumado, roupa muito bem passada, sapatos escandalosamente limpos, pele branca e lisa. Sem pelos. Sem nenhum pelo. Em lugar algum. É... Ele dizia que assim era muito mais higiênico e atraente.
Talvez pela aversão a pelos ou pela alergia (saúde frágil a do Aldo), o marido de Carol já não conseguia mais suportar a presença constante de tanto bicho espalhado pelo ambiente. E, numa dessas manhãs de Primavera, onde a gente consegue ver todas as poeirinhas do ar iluminadas pelos raios de sol, Aldo partiu. E deixou Carolzinha sozinha, desconsolada, dentro de uma casa com sete bichos pra sustentar.
Sete meses se passaram. Aldo mora sozinho. Seu apartamento cobertura duplex é impecavelmente limpo e cheiroso. Sua pele está reluzente e ainda mais branca que o habitual. Todos os dias, o metódico Aldo senta no Café da esquina pra tomar seu Café descafeinado. Sozinho.
Certo dia, de dentro do Café, ele vê uma mulher de costas. Seus cabelos são negros e imensos, batendo na cintura. Ele fica observando crente que conhece bem aquela traseira. Batata. Era Carol. Ela se vira e ele vê, de longe, que ela carrega um cãozinho nos braços. Sarnento e assustado. Carol havia parado no Café para comprar água pro bichinho.
Ele a observa. Ela está linda. Ainda mais. Carolinda. Exalando amor através de seu sorriso. Aldo levanta e vai se encaminhando em direção a ela. Seu corpo parece atraído pelo magnetismo daquela mulher que por tanto tempo foi sua. Quando os dois se avistam, surge um terceiro elemento na situação. E não é o pequeno peludo assustado no colo macio de Carol...
Do outro lado da porta Aldo avista um cara. Cabelo desgrenhado. Tatuagem com motivos aborígines que tomavam todo o seu braço direito. Braço direito peludo. E o esquerdo também. Perna peluda. Cara peluda. “Pombas! Mas isso é um homem ou um urso?”, pensou Aldo numa fração de segundos.
O homem peludo chamava-se Maori. E carregava consigo todos os cães de Carolinda na coleira. E parecia que carregava ali sua verdadeira prole.
Aldo era puro desgosto. Estava arrasado. Imaginou sua Carol se aboletando por sobre aquele homem primitivo... se esbaldando naqueles pelos... Não teve coragem de dizer “oi”. Deu meia-volta e saiu de cabeça baixa. Entrou no seu carro magnificamente limpo. Sozinho.
Carol se aninhou no peito (peludo) de Maori e sorriu. Estava feliz porque a família acabava de ganhar mais um membro que já tinha até nome: Caramuru.
Foram todos pra casa.
Maori quis saber quem era o cara que tentou se aproximar no Café e depois desistiu.
Carol contou toda a história. E, pela primeira vez, divulgou o apelido secreto de Aldo: PELALDO.
Pelos e risadas espalharam-se por todos os cantos da casa.
Lúcia Helena só tinha uma grande mágoa na vida: a de sua mãe ter lhe educado tão bem. “Não fosse por isso, já tinha jogado tudo pelos ares!”, ela dizia esbravejando, como quem quisesse lutar com algo que estava ali mesmo, dentro dela.
Casada há exatos 26 anos, Lúcia já não conseguia mais manter-se satisfeita. Mulher bonita e muito bem cuidada apesar das quatro crianças que pariu e amamentou. A primeira delas inclusive, Heleninha, foi a responsável pelo casamento tão jovem. Lúcia Helena casou-se já de barriga saliente, ao nem bem completar 18 anos.
Irineu era um homem íntegro, correto, sem vícios e nem grandes ambições. Trabalhava duro pra dar tudo o que a família precisasse. Não reclamava de nada. E amava Lúcia Helena mais do que a ele próprio. Amava de um jeito quase paternal a mulher que se entregou a ele ainda pura.
Acontece que Lúcia Helena há tempos andava irritada com toda essa pasmaceira. Reclamava que fazia sempre as mesmas coisas, que dizia sempre as mesmas coisas, que ouvia sempre as mesmas coisas. Qualquer um que a ouvia, logo a julgava ingrata. Também pudera: Lúcia Helena, aparentemente, tinha tudo: casa bonita, marido fiel e trabalhador e filhos bem criados.
Mas Lúcia Helena queria mais. Ela andava querendo sempre mais. Começava a comparar sua vida com a das amigas que trabalhavam fora, que flertavam pelas ruas, que curtiam saídas furtivas na calada da noite enquanto seus maridos viajavam. E fazia tudo isso em frente ao Irineu. Despejava todas as suas frustrações na cabeça do pobre homem, que já não sabia o que fazer pra ver brilhar novamente o sorriso mais lindo de todo o Rio de Janeiro. O sorriso de sua amada.
Lúcia Helena dormia e acordava com cara de nojo. De desgosto. E a calma de Irineu foi se transformando em raiva. Nada que ele fazia estava do agrado de Lúcia Helena. Se ele fosse ao supermercado e não trouxesse tomates, ela reclamava: “Esqueceu os tomates de novo, Irineu? Cacete, hein!”. Se ele trouxesse os malditos tomates, ela resmungava: “Mais tomate, Irineu? Não viu a quantidade que já tá apodrecendo na geladeira? Cacete, hein!”.
“CA-CE-TE!”. Pensou Irineu ao ir dormir num desses finais de Domingo tediosos da vida. Definitivamente, ele estava cheio.
Num belo dia, Lúcia Helena acorda e percebe que Irineu já saiu. Nota um mar de roupas e sapatos dele espalhados pelo quarto. Não entende nada. Irineu, um cara tão organizado, tão certinho... Mas que bagunça era aquela? Fula da vida, vai até à cozinha. A mesa está vazia. Não tem café. Nem pão. Que dirá iogurte com granola e frutas como ela estava acostumada a saborear todas as manhãs.
Em cima da mesa, somente um bilhete de Irineu: “Lave todas as minhas roupas. Faremos uma viagem no final da tarde de hoje. Vida nova”.
Uma expressão de surpresa tomou conta do rosto de Lúcia Helena. E há tempos ela não sentia nada nem sequer parecido. E somente isso, a sensação de frio no estômago, foi suficiente para fazê-la relembrar do quanto é bom poder rir de si própria.
Ainda sem saber o que pensar, foi até à lavanderia carregando a montanha de roupas do marido. Entrou, tentou acender a luz e nada. Tudo escuro. Olhou pra cima e viu que a lâmpada não estava onde deveria estar. “Que merda é essa?”. Mas já era quase 11:00, e ela tinha muita roupa pra lavar até o final do dia. Então, mesmo sem luz, começou o trabalho.
De repente Lúcia Helena sente um enlace de braços em seus quadris. Pula de susto. Sente a respiração ofegante em sua nuca e o cheiro do homem que ela conhecia muito bem.
Irineu a agarra por trás e sussurra em seu ouvido:
“Escuta aqui, Lúcia Helena. Tu és minha mulher. Eu te sustento. Eu te banco. E eu te desejo. A partir de agora, tu vais fazer tudo o que eu mandar. E lavar minhas roupas sujas é só a primeira delas. Entendeste?”
Amaram-se recostados na trepidante máquina-de-lavar.
Era impossível distinguir o que tremia mais: o eletrodoméstico ou as pernas de Lúcia Helena.
Ali, mudaram de vida.
Irineu teve que retirar a lâmpada para que Lúcia Helena não o visse escondido e nu na minúscula lavanderia.
Ele finalmente percebeu que Lúcia Helena só precisava sentir.
Agora ela estava no escuro... e vendo.
Entre as mulheres que não usam maquiagem, existem três tipos:
A do tipo 1 é aquela que não se maquia por preguiça ou desleixo. O tipo 2 compreende aquelas mulheres cuja beleza natural é tão harmônica que qualquer traço de cor artificial em suas faces acaba por estragar o que a natureza já lhes forneceu de forma perfeita. O terceiro e último tipo é a fêmea que não usa maquiagem por reprovação de seu macho.
Mariela era do tipo 3. Seus olhos eram como dois oásis num rosto de deserto. Olhos que cintilavam ao admirar os tantos e tantos rostos femininos cuidadosamente pintados que cruzavam seu caminho. Tinha a vendedora da boutique, a secretária do seu médico, a atendente da farmácia, as outras mães que Mariela encontrava ao deixar seu filho na porta da escola... Todas haviam sempre de estar com alguma corzinha do rosto. Até mesmo a Consuelo, sua diarista, faxinava a casa e limpava os banheiros sempre com a boca reluzindo num gloss melequento cor de laranja.
Na época do namoro com Jurandir, Mariela não saía de casa sem estar com o rosto devidamente preparado. Cores e cheiros misturavam-se numa perfeita alquimia: longos cílios pretos, bochechas rosadas e a boca num tom de cereja. Ah... O batom cereja... Jurandir delirava. Beijava loucamente aquela boca até que não restasse mais nem um pontinho sequer de batom em seus lábios. Ele sugava o batom de Mariela. Literalmente. O cheirinho de cereja lhe impregnava os poros. Quanto mais batom houvesse, mais avassalador era o beijo. Tinha algo de mistério naquela cor: nem vermelho, nem rosa. Tinha algo de intenso naquele cheiro. O inconfundível cheiro da cereja.
Casaram-se e Jurandir mudou. O batom cereja e toda a maleta de maquiagem de Mariela foram encaixotados ao primeiro pedido apaixonado do marido. "Não precisas mais disso, minha bela. Estás casada comigo, agora. Entendes?". Não. Ela não entendia. Mas aceitava. Nunca mais Mariela pôs um brilho sequer no rosto. E aquela falta de cor a estava deixando cada vez mais pálida, sem graça, sem viço. Sem vida. A bela Mariela estava mais caída que cabelo de careca.
Até que, num dia quente de verão, separando as roupas sujas do marido, Mariela descobre uma mancha na camisa do Jura. Naquele colarinho branquíssimo, reluzente, jazia uma mancha de batom vermelho nada discreta. Pelo lado de dentro da camisa. Não havia dúvida: alguma boca (que não era a sua) havia deixado uma bela de uma marca na roupa branca do Jurandir. A maldita camisa branca que ela mesmo esfregava. À mão. E de cara limpa!
Ela sentiu-se morrer. Podia ser qualquer coisa! Um telefone suspeito encontrado no bolso de alguma calça ou até mesmo um cheiro de perfume barato de mulher. Mas, mancha de batom? Aquilo era muito mais do que uma mentira ou uma traição. Aquilo era uma afronta!
Foi a vez de Mariela mudar. Sem falar nada sobre o episódio, passou a ignorar Jurandir. Não havia mais comida pronta e mesa posta quando o marido chegava do serviço. As camisas e calças de Jurandir acumulavam-se no tanque. Ele passou a sair de casa completamente desmazelado, com as roupas amarrotadas. Ao invés de passar as roupas, Mariela agora deixava passar o tempo. Sentava no sofá e cuidava das unhas. "Maldição!", Jurandir esbravejava. Mas esbravejava baixinho. Tinha medo do que Mariela pudesse ter a lhe dizer.
Os dias se seguiram em paz. Nem briga. Nem amor.
Até que, de repente, todos os homens da repartição onde Jurandir trabalhava começaram a aparecer com as camisas manchadas. Num dia era o Otávio, no outro o Aparício, dali a pouco o Duarte... Até o Clóvis, o estagiário adolescente cheio de espinhas surgiu com a camiseta do Pink Floyd reluzindo a mesma mancha. Engraçado como todos faziam questão de mostrar com orgulho aquelas marcas de batom.
Jurandir andava péssimo: visivelmente mais magro e de olhos fundos. Estava atordoado com aquilo. Quanto mais o tempo passava, mais manchas de batom apareciam nas camisas alheias. Elas apareciam por toda parte. Coitado do Jura, já nem sabia mais se o que via era realidade ou loucura. Certo dia, viu uma delas na calça do Alexandre, o motoboy. "Na calça, não! Na calça, nãããoooo...". Chorou baixinho. E correu pra casa.
Passou zunindo pela porta. Esbaforido. Suando frio. Mariela estava ali, sentada no sofá como de costume. Calma, quieta e branca. Jurandir se ajoelhou aos seus pés e, chorando copiosamente e vergonhosamente, lhe pediu perdão. Derramou-se em juras de amor. E as juras do Jura fizeram Mariela sorrir como há tempos não sorria. Um sorriso sacana.
Nenhum questionamento e nenhuma explicação.
Mariela conhecia bem o Jurandir.
O cheiro de cereja estava impregnado em todos os seus poros. Sufocando-o.
A bela Mariela sabia que Jurandir reconheceria esse cheiro em qualquer lugar.
Um dos momentos mais decisivos da vida de Gonçalves desenrolou-se dentro do meu Táxi.
Gonçalves morava no meu bairro. Sujeito boa-praça. Herdeiro de uma família tradicional da cidade, ramo da construção civil. Muito. Mas, muito dinheiro. No entanto, nunca o vi fazendo corpo-mole pela sua condição abastada. Eu o encontrava sempre saindo cedo para ir ao trabalho, com seu próprio veículo. Aliás, um baita carrão. O povo da rua dizia que Gonçalves dirigia uma nave.
Só que, para toda nave que se preze, há um ET. Coitado do Gonçalves: o que tinha de bufunfa, tinha de feiúra. Aquela corzinha branca, pálido... O cabelo oleoso, liso, caindo na testa. A pele do rosto um tanto quanto judiada pelas espinhas da adolescência. E baixinho. Baixinho de dar dó. O filho único que ainda morava com a mãe. Era o tipo que sempre aparecia nas conversas em família, da mãe com a filha jovem, quando rolava algum papo sobre casamento. "Tem que saber escolher, minha filha! Tem que saber escolher! Olha o Gonçalves, por exemplo! Tá aí, um partidaço! Um homem que cuidaria de ti para o resto da vida!", diziam as mães para as suas filhas. As garotas eram unânimes: "O Gonçalves? Uuuiiii... Nem pagando".
Olhadinha pro Gonçalves, só se fosse pra perguntar as horas. Todas as moças da vizinhança eram iguais nesse quesito. Menos uma: a Aparecida.
Aparecida era a mulher mais linda do bairro. Longilínea. Cabelos negros. A pele sempre beijada pelo sol... Morena até a alma. Morava com o pai e mais 5 irmãos. Todos homens. Aparecida era o frescor, a alegria da casa. E da rua. E do bairro. Saía de casa sempre disposta, caminhando leve, cantarolando qualquer coisa. Não gostava de estudar. Não gostava de trabalhar. Aparecida gostava mesmo era de sair porta afora, de perfumar o ar com o cheiro dos seus cabelos, de se debruçar na bancada das verduras na mercearia e observar as lesminhas verdes que deslizavam sobre os pés de alface. Ela ria. Sorria. E qualquer um que estivesse ao redor dela havia de sorrir o seu sorriso. Era inevitável. Era batata! Aparecida desconstruía qualquer cara feia. Desconformava qualquer mau-humor.
Gonçalves era perdidamente e ordinariamente apaixonado por Aparecida. Seu corpo todo saculejava quando ela vinha lá de longe, sorrindo e dizendo: "Gonsssssssalves...". É, Aparecida falava "Gonssalves". Com ésses. Vários ésses. Era mais a cara dela. Aquilo não era mulher pra cedilha. Não mesmo.
E assim a coisa ia indo. A cada beijo no rosto de "bom dia" que Gonçalves ganhava, era um poema que ele deixava no muro da sua casa. Páginas e mais páginas que viravam ensopado na chuva.
Acontece que o rastro de Aparecida não era só de charme e beleza. Ela deixava um coração partido em cada esquina que perambulava. Homens reduzidos a pó... esperando, em vão, um compromisso, um retorno, qualquer tipo de ligação menos efêmera com Aparecida. Mas ela, nem tchuns. Não queria ter hora pra chegar nem pra sair de casa. Nem encontros marcados com ninguém. Aparecida era do acaso. Do momento presente. Se o garotão falasse: "Então, amanhã a gente podia...", ela corria. Sumia. Refugiava-se no mundo das lesminhas verdes da alface.
E Gonçalves sabia disso. Foi dentro do meu Táxi que ele a seguiu, várias vezes, para ver de perto a cara desses sujeitos. E olha que ele viu bastante coisa... Definitivamente, "discreta" era algo que Aparecida não conseguia ser. Foram exatamente 8 viagens desse tipo. E os mais variados tipos de sujeitos: loiro, moreno, careca, cabeludo, engomadinho, hippie... Todos deixados na rua da amargura após breves momentos de paixão arrebatadora. Gonçalves vibrava a cada ramalhete de flores que Aparecida jogava no chão. E, quando ela virava as costas, aplaudia. "Isso, Cidinha! Isso!". Era como uma heroína pra ele. A super-mulher-das-pernas-de-pinça.
Até que chegou a nona corrida de Gonçalves no meu Táxi. Confesso que eu já tava cansada. O que seria agora? Talvez Aparecida num circo, brincando de amar o malabarista pra depois deixá-lo despencar lá do alto de sua ilusão... Sei lá. Podia ser qualquer coisa. Mas Gonçalves entrou diferente dessa vez. Tinha a cabeça erguida e o olhar seguro. Estranhei a postura. E estranhei ainda mais o destino: "Toca pra Signus". "A Signus?", perguntei... "do Boa Vista?". "É, é. Essa mesmo". Signus era o nome da joalheria mais pomposa da cidade.
Naquela noite mesmo, Gonçalves pediu Aparecida em casamento. Sem nunca ter namorado. Sem nunca, sequer, ter beijado aquela boca que tanto já tinha visto colada em outras bocas através das janelas do meu carro. Não levou flores. Nem bombons. Nem poemas. Nem anel... Gonçalves comprou na joalheria uma corrente. Do mais lindo ouro branco. Pendurado nela, um pingente em forma de pássaro. Com as asas abertas e um diamante no olho.
Ao chegar na casa de Aparecida, em silêncio, deu-lhe um beijo no rosto. Calmo, colocou delicadamente o colar em seu pescoço. Percebeu a nuca de sua amada pela primeira vez e seus cabelos molhados recém saídos do banho. Sentiu o coração aquecido de coragem:
"_Tu aceitas, minha passarinha? Tu aceitas voar comigo?"
...
Depois desse dia, Gonçalves nunca mais voou sozinho em sua nave. Havia uma princesa ao seu lado. Enquanto ele prestava atenção na direção, conduzindo sua jóia da maneira mais segura possível, ela olhava pela janela. Luz dentro e fora. Sorrindo. Pro mundo.
Gonçalves sempre soube que jamais poderia aprisionar o sorriso de Aparecida. E isso pouco lhe importava.
Porque agora ele era "Gonsssssssssssssssssalves".
Já não era mais homem pra cedilha.
Não mesmo.
O casal esperava bem em frente ao restaurante. Antes que eu puxasse um pequeno fôlego para dizer "Boa Tarde", a moça entra apressadamente no Táxi e quase fecha a porta no nariz do rapaz que entrava atrás dela.
_ Cachorro! - Soltou como se cuspisse algo engalhado na garganta há horas.
Engoli o ar. Os dois entraram. Delicadamente, perguntei qual seria o destino. Mais uma vez, quem se pronuncia é a garota:
_ Pra mim, a Conselheiro Mafra, na esquina dos Correios. Agora, esse cachorro aí, você pode levar pro quinto dos infernos. Pro diabo que o carregue!
O nome da mulher em fúria era Nice. O nome do rapaz que a acompanhava eu não sei, já que ela só se referia a ele como "cachorro". Nice era uma loira de cabelos pintados e alisados que caíam sobre a pele branca. Nem feia e nem bonita. Nem alta e nem baixa. Nem gorda e nem magra. Aquele tipo assim... Nem quente e nem fria. O rapaz era visivelmente mais velho. Moreno. Cabelo desalinhado, barba por fazer e costeletas. Um ar de moleque. Um sorrisinho sacana no rosto e uma tranquilidade que deixava Nice ainda mais perturbada.
_ Nicinha, meu bem... Pra quê tudo isso? Pra quê tanta raiva?
_ Pra quê tudo isso? Cachorro! Você acha que eu sou o quê? Que eu sou da sua laia? Podia pelo menos me respeitar! Podia esperar eu ir embora daquela bosta de restaurante!
_ Ô meu favo de mel... Mas que bobagem... Tu sabes que és única... Tu sabes do meu amor por ti... A mais linda das lindas...
_Cala a boca, cachorro! Da próxima vez que for se assanhar pra primeira ordinária que passar na sua frente, tenha a certeza de que eu não estarei olhando. De que ainda estarei dentro do banheiro!
_Nicinha, meu anjo. Que grande confusão estás fazendo. A menina só pediu uma ajuda porque a alça da sua bolsa havia prendido na cadeira onde eu estava sentado... Levantei pra ajudar. Era uma bolsa daquelas imensas, tu vistes. Cheia de penduricalho... Engalhou feio nas tramas do encosto...
_Encosto é você na minha vida, seu cachorro!
_Minha pequena... Não faz assim... vamos pra casa agora terminar bem o nosso dia... Eu te faço aquele carinho gostoso... Pra tu relaxares... Estás muito cansada do trabalho, Nicinha... É só isso...
E assim a conversa foi indo. Nunca, em toda a minha vida, ouvi tanto a palavra "cachorro". E isso sempre me incomoda. Poxa, tanto xingamento compatível com a ocasião: cretino, desgraçado, mulherengo, lazarento, peste... E Nice insistia em chamá-lo de cachorro. O animal mais doce e carinhoso do planeta. Aquilo foi me deixando com uma certa raivinha de Nice. Que falta de criatividade! Que falta de argumentação! Era só isso que ela sabia fazer? Cruzar os braços e chamar o coitado de "cachorro" enquanto ele balbuciava as palavras mais doces a ela? Comecei a ficar com pena dele. O rapaz já tava tão encolhido num canto do banco que parecia realmente um cachorro acuado, morto de medo de ser surrado por sua dona. Nice era, definitivamente, uma chata de galocha. Uma insuportavelzinha a Nicinha.
Chegando na Conselheiro Mafra, Nice desceu. Pelo que entendi, era a casa deles. Ela impediu o pobre homem de descer do Táxi junto com ela. "Comigo, você não vai. Trata de arranjar um canto pra ficar". E saiu. Raivosa. Furiosa. Soltando fogo pelas ventas.
Ficamos nós dois dentro do Táxi e eu aguardando pra saber aonde deveria levá-lo (esperando, sinceramente, que não fosse para o quinto dos infernos). O figura continua sentado. Ao perceber que Nice havia entrado em casa, ele se esparrama no banco. Abre as pernas, cruza os braços atrás da cabeça e dá um suspiro de alívio. Sem a menor pressa, tira um chiclete do bolso, desembrulha e começa a mascar. Seu sorriso torna-se ainda mais sacana.
Então, de repente, ele se inclina pra frente e toca meu ombro. Chega tão perto de mim que sinto o cheiro da menta e o calor na minha nuca. Com a mesma voz que chamava Nice de "favo de mel" há alguns minutos atrás, ele sussurra em meu ouvido:
_Ei gracinha... Pensa que eu não reparei em ti? Toda linda. Toda charmosa. Tu és uma uva... Sabes que deveriam proibir uma coisinha tão preciosa como tu de dirigir um Táxi? Podes provocar uma catástrofe no trânsito... Tens quantos aninhos, neném?
...
Ele saiu do meu carro da mesma maneira que entrou. Ao som de: "_CACHORRO!"
Foi minha singela homenagem à Nice.
Sábia Nice.
_ Pode, mocinha?
Foi a pergunta da madame com seu cão nos braços, assim que parei o carro ao ver seu sinal. Ela queria saber se podia entrar no meu Táxi com o bichinho. Olhei pra ela, olhei pro cachorro e pensei: "Ué, e por que não poderia?"
_ Pode sim!
Ela entrou. Carregava um cãozinho minúsculo e peludo. Não consegui identificar a raça do pequeno, porque sobre ele caía uma parte da echarpe que a madame usava. Estampada de oncinha nas cores pink e marrom. E, definitivamente, ela não podia estar carregando um filhote de onça. E, definitivamente, um filhote de onça não teria sua pelagem rosa pink com purpurinas.
Seu nome era Eleonora. Mas era pra chamar de Nôra. "Nome curto é mais chique", disse ela, acariciando a cabeça do "Bebê". "Bebê" era como ela chamava o cão. "Bebê" era o apelido dele. Era o diminutivo de "Bebeto". Que era o diminutivo de "Roberto". Que, por sua vez, também era o diminutivo de "Roberto Carlos". Sim, o Rei.
Nôra e Bebê. No meu Táxi. Indo para o badalado "Cláudio's Coiffeur". Um salão de beleza. Para cães.
Durante a corrida, eu a observava. Tão engraçada a Nôra. Um rosto meio plástico, o cabelo sem um único fio a balançar, a sobrancelha fiiiiina como uma vírgula desenhada acima dos olhos. A maquiagem pesada e um perfume tão doce, mas tão doce, que juro ter visto abelhinhas seguindo seu rastro. Perfumes que deixam rastro são típicos de madames e seus cãezinhos.
Passamos por alguns semáforos. E alguns pedintes em cada um deles. Gente mal-vestida, suja, com sede, com fome. Gente sem nada. E, por um momento, julguei Nôra. Com a mesma ignorância de todos aqueles que julgam alguém que acabou de cruzar o seu caminho. Julguei-a fútil e vazia, com suas mãos abarrotadas de anéis reluzentes a carregar um cachorro prestes a iniciar uma sessão de beleza no Salão mais caro da cidade.
De repente, desvio o olhar da roupa, dos anéis, da estampa de onça e tudo o mais que Nôra estivesse usando como adorno. Pelo retrovisor, miro exatamente em seus olhos. Tenho que fazer um esforço pra não focar na sobrancelha esquisita. E faço. Olho somente nos olhos.
Os olhos são azuis. Um azul límpido. E descubro nela algo ainda mais doce que seu perfume: seu olhar direcionado ao cãozinho. Um olhar terno, macio, cuidadoso. Nôra olhava para Bebê como quem olha pra um tesouro. E o brilho de seus anéis ficava murcho perto da luz que emanava do azul. Do azul dos olhos maquiados de Nôra.
E, querem saber? Achei-a linda. Estava ali, no meu Táxi, em pleno calor das 14:00 da tarde, uma mulher de seus sessenta e tantos anos, radiante por estar proporcionando algo a seu cão. Nôra e Bebê. Felizes em seus mundos. Cúmplices.
Antes de sair, Nôra ajeita a echarpe no pescoço e consigo ver a carinha do cão. Seus olhinhos negros brilham e seu rabo balança freneticamente. Ele a ama. Ele só tem a ela.
Nôra cuidava de Bebê como quem cuida de um tesouro.
Há um Rei em seu coração.
Engraçado a maneira como as pessoas mudam ao longo de uma semana.
Tenho uma passageira fixa, há mais ou menos 2 meses. Levo-a no aeroporto sempre às Terças pela manhã e a busco sempre às Sextas ao anoitecer. Ela faz uma pós-graduação em São Paulo e viaja, religiosamente, todas as semanas.
O nome dela é Suzana. Mas nas Terças ela é Rute. E nas Sextas é Marina. Esses dois nomes fui eu quem criei. Gosto de usá-los quando conto sobre ela.
Rute entra no meu Táxi bufando, cansada já às 7:00 da matina da Terça-feira. E me dá um "bom dia" seco. Tenso.
Rute tá sempre de rasteirinha e roupa preta. No máximo, rola um cinza. Daqueles bem apagadinhos.
Tadinha da Rute. Tá sempre apressada. Tá sempre atrasada. Tá sempre com uma mancha de pomada pra assadura de bebê nas suas roupas negras.
Rute tem o cabelo preso. Carrega alguns papéis soltos da maleta numa mão e, na outra, um filtro solar. Que deixa para passar dentro do Táxi. Olho pelo retrovisor e a última imagem que tenho dela antes de deixá-la é sempre a de uma mulher com a testa engordurada, sem saber o que faz primeiro: se fecha o tubo de protetor ou se pega meu dinheiro. As notas vem sempre meladas, com um cheiro de melancolia típico de quem passa o dia ensolarado na praia debaixo da sombrinha. A melancolia dos que tem medo do sol.
A semana passa. E, ao cair da noite de Sexta, é noite de Marina.
Marina é vista de longe. Os ombros erguidos, sempre à mostra. Às vezes um pouquinho escondidos pelo cabelo que cai logo acima deles. Soltos. Sempre. E lá vem ela.
Marina não fala "Boa noite". Marina diz "Oooooooooii". Com mais "Os" do que "Is".
O salto é longo e a roupa é curta. Quando não é curta, é justa. Clara. Viva. Vida.
Quando ela entra no Táxi, escuto o barulhinho de seus brincos enormes fazendo "tilim tilim".
Marina tem dentes. Aliás, acho que tem mais dentes que o normal. Eles parecem não caber numa boca fechada.
Que lindo sorriso tem Marina! E que cheirinho bom ela deixa no meu carro.
Rute e Marina passam exatamente o mesmo tempo comigo: de 7 a 12 minutos. E um abismo de diferenças as separa.
Rute é Rude. Amarga. Liga pro marido não esquecer de comprar seus remédios pra enxaqueca na farmácia.
A Rute das Terças-feiras.
O que acontece durante a semana, eu não sei.
Eu só sei que Marina brilha.
A Marina das Sextas.
Marina não telefona para o marido. Ela tá ocupada olhando as luzes da rua. Ainda no meu carro, seu celular toca. É ele quem liga do supermercado pra saber o que tem que comprar.
E a última imagem que tenho de Marina é seu rosto luminoso, celular no ouvido, um sorrisinho leve e a mesma frase, todas as Sextas-feiras:
"_Hummm... Traz um vinho... E uma Coca."
Marina é mar. Marina é imensidão.
Rute tem filhos. Marina faz filhos. E ambas são Suzana.
Para ler durante a corrida
Olha o cachorro atravessando a rua!
Retocando o batom no retrovisor
